sábado, 23 de abril de 2011

Corpos Trauteados: O Prefácio



A melodia que aproxima os nossos corpos nesta dança levita-nos.
Sentimos a respiração ofegante e saborosa. Sentimo-la como razão.
Pensamo-la com o coração.

Arrima-te a mim.
Dançámos e voltamos a dançar até a corda nos atar.
Dançaremos para nunca mais nos soltar.

A filantropia emocional

A alienação, por vezes, não é um acto precipitado, egoísta ou misantropo. Longe disso. Assumir uma postura de absorção pode ser uma arte curativa, um auto-lobrigar que todo o Ser precisa: um momento de comunhão uterino e ascético; a musicalidade interior, bem como estabelecer o equilíbrio entre o conhecido e o mistério; entre o benigno e o pérfido – o seu próprio juízo e crítica. A harmonia, por assim dizer.

Mas não cairdes na sinagoga de não saberdes alienar-vos no momento certo ou, por justaposição, ides ficar inextricáveis numa desordem Kantiana; num limbo imaginário que jorra discordância e que intelectualmente vos enclausurará num ciclo corrupto e negligente, distorcendo o propósito desta alienação – é a prisão sorumbática intelectual. Esta é uma disfuncionalidade perversa, matreira e convidativa como uma garrafa de uísque de 25 anos que urge ser bebida lenta e amargamente até à última gota – os espinhos de cada rosa.

A alienação, que eu aqui caracterizo, é quase prazenteira mas não vos deliciará. Também não é um dogma, nem um guia moral e muito menos estável, pois comuta-se e decompõe-se em sensações, por vezes sem qualquer padrão ou matematização.

Posto isto, alienar-me-ei.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O éter das palavras

Escrevo cartas que sei que nunca as enviarei.
E continuarei a escrevê-las.
Escrevo palavra-a-palavra o silêncio e redefino-o tão veementemente, que se torna ensurdecedor.
Encantoo-me num labirinto de palavras: consumo-as lenta, lasciva e avidamente até à última sílaba. Tal como um orgasmo feminino e exacerbado.
É o meu concubinato assexuado. Uma relação inextrincável e delico-doce entre a comiseração de cada vocábulo e a volúpia.
O temor de uma página em branco é acirrante – a sodomia lúgubre que afugenta as virgens de pele rosada pela ofegante respiração: a tentação.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A arquitectónica sedutora.

A esplêndida sensação de sermos embaídos pelo arcano, pela simples, singular e pecaminosa, doçura deixa-me pensativo. É um duplo pensamento que, por um lado, me constrói metonimicamente e que, perifrasticamente, me disfemisma. Por outro lado, me alimenta e aguça o apetite, deixando-me irresistivelmente consumir nessa incerta afectuosidade.
Esta é capaz de ser astuta ao ponto de, semi-quiasmicamente, enclausurar qualquer sensação, aprisionando-a e moldando-a até que fique hiperbolicamente evidente: ora tão fluida que aligeira o coração, palpitando entesadamente; ora tão espessa e aguda que fulmina qualquer vitalidade.

É o jogo perverso da sedução: é um inconveniente para a alma, atrevo-me a dizer.


quinta-feira, 27 de maio de 2010

O processo axiomático e os seus manifestos



Enche-me o copo.
Torna a razão mais diluída.
Não penses.
Dá-me o elixir correcto. Esse, sim, que, como eu, tanto anseias.
Vamo-nos embriagar nas sensações e nas emoções e deixar de lado as palavras que tanto gostamos de escrever, de ler e de sofrer.
Não relembres o passado nem os seus fantasmas.
Eu sei. Tu sabes.
Nós sabemos a Fórmula que outrora estivera presente na, agora, colofónia das nossas mentes labirínticas, desordenadas e desassossegas.
O vazio do que somos e no que nos tornamos é lacerante.
Dança, ao meu lado, com perícia e jucundidade como se de uma declamação se tratasse.
Deixa-me consumir-te desmedidamente o íntimo.
Deixa-me adivinhar-te a alma. Deixa-me decifrar-te a nu.
Enche-me o copo.
Torna a razão mais diluída.
Não penses.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O aforismo silenciado

Levas-me as palavras como se elas não significassem nada.
Levas-me as palavras como se elas nunca fossem ditas.
Como se saíssem dissimuladas de silêncio,
Como se fossem apenas uma música sem ritmo, uma marcha sem passos ou um dilúvio sem uma mísera gota de água.

As minhas palavras não te irão cicatrizar.
As minhas palavras não te irão cicatrizar, pois és tu quem decide.

E eu, no epicentro do vácuo, vejo as estações passar de azul a cinzento.
Ouvimos a tragédia. Ouvimo-la como nunca. Segue-nos inextrincavelmente e sem clemência.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A valsa

Rosas. Rosas e um quarto por valsar.
O som que nasce das paredes justapõe-se a uma identidade insípida, frígida e madraça.
O timbre penetra nos corpos sôfregos, moldando-os e congregando-os erógenamente num ser uno, não mutável.
O som, em uníssono, dos primeiros momentos do encomiástico lúbrico, torna quente e preenche o espaço vazio. Locupleta-o de brilho.
Gritos. Gritos que valsam num quarto.
Arrojadas posições-sinédoque que despertam o sentido animalesco dos corpos entesados que se cadenciam em acto contínuo.
Silêncio. Silêncio e um quarto valsado.