domingo, 17 de janeiro de 2010

A valsa

Rosas. Rosas e um quarto por valsar.
O som que nasce das paredes justapõe-se a uma identidade insípida, frígida e madraça.
O timbre penetra nos corpos sôfregos, moldando-os e congregando-os erógenamente num ser uno, não mutável.
O som, em uníssono, dos primeiros momentos do encomiástico lúbrico, torna quente e preenche o espaço vazio. Locupleta-o de brilho.
Gritos. Gritos que valsam num quarto.
Arrojadas posições-sinédoque que despertam o sentido animalesco dos corpos entesados que se cadenciam em acto contínuo.
Silêncio. Silêncio e um quarto valsado.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Ornato


Eu sou aquilo que vejo, que cheiro, que sinto e que ouço.
Eu sou aquilo que quero ver, que quero cheirar, que quero sentir e que quero ouvir.
Não me estou a definir, pois deixo as definições para quem quer ou para quem as tem.
Eu sei, mas guardo-as para ninguém mais saber.
O meu coração dói. E dói quando falo.
Quero esquecer porque saber é morrer. Saber é o fim.
O fim são palavras soltas, substituídas anacronicamente, sem concatenação.
E eu sempre imaginei algo mais…

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Corpúsculo



Pinta aquele rio para mim.
Pinta-o de azul-turquesa, nesta noite d’Outono
E fala-me com sons do sorvedouro.
Fala-me enquanto as árvores cedem as folhas e os fantasmas tripudiam
Entre a escuridão e o mar brilhante.
Os fantasmas deambulam nos caminhos, virgulados por sinos de prata, que evocam pelo teu nome
E o teu nome, coberto de pecado, assombra a galáxia mais longínqua
Cercando o corpúsculo numa dança que nunca se concluirá.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A cantiga que não tocará


O som etéreo já não ecoa. Não o sentimos no corpo.
Perdeu-se no último ósculo, na última pancada, no último contemplar.
A quinta-essência desvanece-se, penetrável como uma fissura.
Estéril, a melodia refreia-se escurecendo a saudade.
É o som da despedida e a última dança jamais se desenrolará.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Insípido, para sempre.





Esquecer. Apagar.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A fragmentação dos sentimentos e dos seus apêndices

O vidro desfeito não será, com toda a certeza, um motivo para não continuar a passear neste carpido de turvas emoções. Fora desta translúcida concavidade, o ar é impregnado, indistinto e pronto a asfixiar as emoções, atravessando o corpo como se de uma azagaia se tratasse. Os pensamentos arrastam-se e as desordens são comutadas, dissolvendo-se em despojados actos, que convergem para a perturbação. Lá fora chove. E a chuva não é mais que a purgação da dor, da raiva, da lucidez e da insatisfação. Arrisco-me a dizer que as emoções são ópio dos sofredores.
A incerteza empedirna o terror. O sentimento do: agora estou aqui; agora não estou, exacerba a mais delicada Existência. A existência é estranha, cáustica. É o caminho sem rumo que, embora não seja palpável, levar-nos-á para a solidão. A solidão, para todos os efeitos, é a nossa melhor amiga. Nunca nos abjurará nem que seja apenas no fim do caminho. Mas estará lá. E no fim, no fim tudo o que nos traçou será apenas um monte de amargura que as chamas irão consumir docemente.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os Meandros Anacrónicos


A vereda está traçada,
Os carris arcam o peso das decisões
E guiam-nos: ora por tormentos mundanos, ora por deleites surreais.
A vida está na sua senda e não esperará.
No fim, no fim não seremos mais que corpos ressequidos e inumados, intrinsecamente,
Pelas falsas decisões.