terça-feira, 2 de julho de 2013

O Manifesto do Corpo e da Alma

Nem sempre a mente executa como o coração manda. Por vezes, a cerração apodera-se do corpo sem pedir consentimento e arrasta-o, lenta e ruinosamente, para a treva – o quase-abismo. O abismo, esse, pode ser interminável, como um buraco negro que suga tudo à sua volta, mas pode ser apenas uma contrariedade, um óbice imprevisto – um obstáculo dos deuses, se o quisermos colocar de uma forma mais esotérica.
Dois desfechos são possíveis:
É interminável, quando nos fechamos nesse ciclo sem a autoconsciência que o abismo está ali, fixo e pronto a devorar cada pedaço da nossa consciência e humanidade.
A tomada de consciência, quando se forma, é o passo inicial para a luz, para o término desse momento negro – é fulcral para que o corpo volte a resplandecer e se torne humano novamente, voltando a obedecer repetidamente ao coração. Este é um processo que requer uma grandiosa força, vontade e conhecimento. Conquanto, este processo não pode ser todo ele feito sozinho e sem ajuda, antes pelo contrário. As mãos dadas são a alavanca para a elevação das almas. Para a purificação e para a confiança. Para a felicidade e para o amor. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Corpos Trauteados: O Perfume


Embebido no meu coração estará para sempre o teu perfume: doce; sensível; contagiante e sensual.
Sinto-o como o sangue que percorre o meu corpo
E cheiro-o a cada batida do meu coração.
Jamais saíra do meu corpo.
Quero-o como um pianista anseia pela sua obra-prima.
É o compasso que fica apenas composto com o teu toque, o teu beijo e o teu sorriso.
Juntemos os nossos perfumes para que o elixir perfeito seja criado.

Encontrado está: continuemos a misturá-lo.

sábado, 30 de março de 2013

As privações dos sentimentos oblíquos


A utopia da recticidade evapora-se quando o coração, lúgubre, contrai-se acidamente numa parede densa e disforme de sentimentos. Esses mesmos sentimentos que numa hora são radiosos e esperançosos e na outra hora são usurpadores, inconsistentes e vácuos.
A claustrofobia sentimental é tenaz e exponencialmente crescente às desilusões carnais. Persegue-nos como uma sombra matreira pronta a sobrepor-se-nos.
A espirituosidade concomita-se na outrora ilusão sentimental. Tudo isto torna-se acre se não formos auto-conscientes e sabedores das nossas próprias limitações. A auto-consciência é uma ciência, porém não exacta da qual não sabemos como a alcançar. É fundamental para que o equilíbrio entre os corpos exista.
Quem é perfeito é semidivino, uma espécie de esculpidor de destinos que ao mínimo processo aleatório se desfazem em possibilidades. Mesmo que infinitas, essas possibilidades desvanecer-se-ão em fatalidades. É o fim.
Não nos podemos esquivar. 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Piano*


O piano, no meio da sala deserta, preto e imponente, reflectia a luz que entrava pela janela com cortinas velhas e rasgadas. Tudo o resto nessa sala era velho, sem cor e sem alma. Da janela viam-se as árvores a perderem as folhas em pleno Outono. 


Martim, que fazia aquele percurso desde que entrou para a primeira classe, um mês antes, nunca tinha reparado na casa. “Era velha, parecia abandonada”, pensara. Parou e começou a prestar atenção aos pormenores da casa. A pintura estava gasta, tinha uma arcada no piso térreo que funcionava como uma espécie de embasamento e no primeiro andar vários varandins com balaústres muito simples, quase sem decoração, que continham janelas a sustentar cortinas amareladas pelo pó e luz solar que apanharam durante anos a fio; estavam rasgadas mas nada se avistava para o interior. A porta, de madeira pintada de verde, estava gasta e descascada. Era uma porta alta mas parecia muito frágil. O rapaz, com toda a sua curiosidade a ferver-lhe nas veias, ansiava por entrar, mas, por outro lado, tinha medo do que poderia estar lá dentro. Era final de tarde e tinha de ir para casa ou ouviria sermão de seus pais. Todo o caminho até sua casa não conseguia tirar aquela imagem da sua mente, estava intrigado e tinha de lá voltar. Tinha de entrar na casa, mas para isso tinha de ter coragem. E Martim considerava-se um rapaz valente e corajoso, mas nunca tivera tamanho desafio em toda a sua vida. 
Passaram dias sem poder lá voltar sozinho: ora porque voltava com colegas das aulas para casa, ora porque tinha trabalhos de casa para fazer e descuidar-se na escola estava fora de questão. Martim estava a dar em doido com a curiosidade que se apoderava dele. Não podia contar a ninguém sobre tamanha descoberta. Era o seu segredo. Algo o intrigava e puxava para conhecer melhor o que estava lá dentro, quais os seus segredos ou o que guardara. Uma semana passou, após o seu primeiro e ténue contacto, e Martim lá conseguiu voltar à porta da casa abandonada. Era um momento pelo qual ansiava há dias e, portanto, tinha-o bem delineado na sua mente. Sabia perfeitamente o que teria de fazer. Mas o nervosismo e inquietação eram tão fortes que bloquearam momentaneamente todos os seus pensamentos. Abanou a cabeça como se tentasse libertar os pensamentos e ganhar novamente consciência e controlo do seu corpo. 
Com um misto de astúcia e brusquidão empurrou a porta e, acto contínuo, a porta abre-se. Sentiu a adrenalina a tomar-lhe conta do corpo. Sentia o coração a bater tão aceleradamente que parecia que lhe ia sair pela boca. Martim nunca se sentira assim. Circunspecto, deu dois passos e estava dentro da casa que tanto o intrigava. “Tenho de me acalmar”, sussurrou, não fazia sentido estar assim, “é apenas uma casa abandonada”, pensou, tentando assim tranquilizar-se. Sentiu-lhe um leve cheiro a mofo bem como um trago empoeirado, normal de uma casa fechada há bastante tempo, mas ainda conseguia detectar no ar o cheiro adocicado da madeira. Perscrutou o átrio da casa, à sua frente viu uma escadaria larga, toda em madeira branca, que conduzia para o andar de cima, à sua esquerda avistou a cozinha e à sua direita encontrava-se uma sala com imensos livros. Apesar de ser uma casa com cor e tonalidade cinzenta, “nem está má”, balbuciou. Era uma casa com louças e decorações antigas, sem exageros, mas requintada. Deslocou-se para a sua direita, até à sala, e o chão de madeira ia rangendo a cada passo. Era uma sala repleta de livros, sentia-lhes o cheiro e conseguia ver as camadas de pó que os camuflavam e tornavam complicada a leitura das capas. “Uma biblioteca!”, disse pasmado. Não era normal, pelo menos nas casas que Martim frequentava, ver uma biblioteca numa casa, mesmo que pequena. Perdeu alguns minutos a percorrer a sala, não que ela fosse grande, mas porque estava siderado em tamanha descoberta. Chegou ao fundo da sala e viu uma pequena porta que com certeza daria para outro compartimento da casa. Abriu-a e ficou atónito, era uma sala bem mais iluminada que o resto da casa e no centro destacava-se um imponente piano. Nada mais. “Meu Deus!”, disse ainda a recuperar da estupefacção, “que belo piano”. Queria tocar-lhe. Dirigiu-se, sem largar os olhos do instrumento, até ao centro da sala e quando estava a dois passos de lhe tocar, acto contínuo, as teclas do piano começaram a mexer. Martim estremeceu, ficou abismado, sentiu os seus músculos a entorpecer. Estático e sem se conseguir mover, o rapaz fitava de olhos arregalados as teclas do piano cintilante. Estava perplexo. Sentia a música mas não a ouvia; era angelical. Tentou gritar para se libertar do estado de transe, mas saiu apenas um grito oco, sem som. As teclas mexiam-se a um ritmo cada vez maior. Martim, não se sentia dono do seu corpo nem das suas acções, não conseguia desviar o olhar do piano; via-o com todo o seu esplendor e luminosidade. “Mas que raio se estava a passar? Porque não se conseguia mexer? Porque é que sentia o seu corpo longe, como se alma e corpo estivessem a andar em direcções distintas. E, acima de tudo, como era possível estar a presenciar aquele momento transcendente?”, questionava-se. O cheiro adocicado que minutos antes sentira desaparecera, dando lugar a um cheiro nauseante. Frenéticas, as teclas do piano pareciam não parar, pelo contrário; se de uma peça se tratasse, este seria certamente o clímax. Martim quase a perder as forças, sentia-se perdido e sem saber o que fazer. O seu corpo não respondia e sentia-se fraco, pronto a desistir de tentar contrariar o que quer que fosse aquilo. Nesse momento, conseguiu vislumbrar as teclas a suavizarem o seu ritmo. Já não era um ritmo frenético, era, sim, um ritmo ponderado e a perder velocidade até que a última nota soou na cabeça de Martim. Pum!



Adelaide, que estava na cozinha, assustou-se com o estrondo que viera de lá de cima. Aflita, deixou cair a tigela que tirara da prateleira, e correu em direcção ao primeiro andar da casa. Ela sabia muito bem de onde viera aquele barulho estrondoso. Temendo o pior, abriu a porta do quarto e viu o seu menino deitado no chão, inconsciente. A soluçar, pegou no seu telemóvel para pedir ajuda médica, em seguida telefonou ao marido “o Martim teve outro ataque, vai rápido para o hospital!”, disse a chorar ainda não habituada às apoplexias do seu filho, que haviam começado uma semana antes. Enquanto se dirigia para o hospital, rezava para que o tumor não o tivesse matado. Tinha de haver salvação para Martim! “É demasiado novo para mo tirares de mim”, disse, olhando no vazio, com algum rancor.




*Texto elaborado para o concurso "Conte Connosco", do Banco Santander, obtendo o 3º lugar.

sábado, 23 de abril de 2011

Corpos Trauteados: O Prefácio



A melodia que aproxima os nossos corpos nesta dança levita-nos.
Sentimos a respiração ofegante e saborosa. Sentimo-la como razão.
Pensamo-la com o coração.

Arrima-te a mim.
Dançámos e voltamos a dançar até a corda nos atar.
Dançaremos para nunca mais nos soltar.

A filantropia emocional

A alienação, por vezes, não é um acto precipitado, egoísta ou misantropo. Longe disso. Assumir uma postura de absorção pode ser uma arte curativa, um auto-lobrigar que todo o Ser precisa: um momento de comunhão uterino e ascético; a musicalidade interior, bem como estabelecer o equilíbrio entre o conhecido e o mistério; entre o benigno e o pérfido – o seu próprio juízo e crítica. A harmonia, por assim dizer.

Mas não cairdes na sinagoga de não saberdes alienar-vos no momento certo ou, por justaposição, ides ficar inextricáveis numa desordem Kantiana; num limbo imaginário que jorra discordância e que intelectualmente vos enclausurará num ciclo corrupto e negligente, distorcendo o propósito desta alienação – é a prisão sorumbática intelectual. Esta é uma disfuncionalidade perversa, matreira e convidativa como uma garrafa de uísque de 25 anos que urge ser bebida lenta e amargamente até à última gota – os espinhos de cada rosa.

A alienação, que eu aqui caracterizo, é quase prazenteira mas não vos deliciará. Também não é um dogma, nem um guia moral e muito menos estável, pois comuta-se e decompõe-se em sensações, por vezes sem qualquer padrão ou matematização.

Posto isto, alienar-me-ei.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O éter das palavras

Escrevo cartas que sei que nunca as enviarei.
E continuarei a escrevê-las.
Escrevo palavra-a-palavra o silêncio e redefino-o tão veementemente, que se torna ensurdecedor.
Encantoo-me num labirinto de palavras: consumo-as lenta, lasciva e avidamente até à última sílaba. Tal como um orgasmo feminino e exacerbado.
É o meu concubinato assexuado. Uma relação inextrincável e delico-doce entre a comiseração de cada vocábulo e a volúpia.
O temor de uma página em branco é acirrante – a sodomia lúgubre que afugenta as virgens de pele rosada pela ofegante respiração: a tentação.